Até 5 de novembro de 2026, o efeito da Medida Provisória 1.394/2026 sobre o varejo alimentar brasileiro cabe em duas semanas de dados: a Abras registrou alta de 6,5% nas vendas entre 5 e 11 de outubro e de 6,3% na semana seguinte, sempre comparadas ao mesmo período de 2025. A entidade atribui o movimento à proibição das bets, que tirou do aplicativo de apostas parte do dinheiro que voltou para a cesta de arroz, óleo, macarrão e café. Para quem opera loja, a leitura útil não é a do número nacional, e sim a da diferença entre regiões e da disponibilidade na gondola.
O que os números mostram, e o que ainda não mostram
A primeira semana analisada tem duas particularidades que a própria Abras não controla: ela termina em 5 de outubro, prazo para os apostadores retirarem saldos das plataformas, e antecede o feriado do Dia das Crianças, que em 2026 caiu numa segunda-feira. Analistas ligados ao setor de apostas lembram que as vendas nominais do varejo alimentar já cresciam 7,9% em meados de setembro, antes da medida. Ou seja, o número de 6,5% é real, mas a atribuição integral à MP ainda é uma hipótese em discussão no Supremo Tribunal Federal.
Antes de tratar o dado como definitivo, vale separar duas perguntas que costumam ser confundidas. A primeira é se o consumo de alimentos realmente cresceu; a segunda é se esse crescimento chega à prateleira na velocidade necessária. A Abras responde a primeira com números semanais e a segunda fica em aberto, porque depende de reposição, entrega e disponibilidade por loja, itens que o levantamento não mede. Para a operação, a segunda pergunta é a que decide venda.
A alta não é igual em cada praça
A abertura regional é a parte mais acionável do levantamento. Na primeira semana, Sul e a região que reúne Minas Gerais, Espírito Santo e interior do Rio ficaram em 10,6%, enquanto a Grande São Paulo registrou 1,2%. Na segunda semana, a Grande São Paulo subiu para 5,5% e a Grande Rio para 6,0%, mas o Centro-Oeste desacelerou de 3,6% para 3,5%. Para uma rede com lojas em várias praças, isso significa que a resposta de sortimento e de reposição não pode ser única.
| Região | Semana 5 a 11 de outubro | Semana 12 a 18 de outubro |
|---|---|---|
| Sul | 10,6% | 9,0% |
| Minas Gerais, Espírito Santo e interior do Rio | 10,6% | 7,1% |
| Nordeste | 6,5% | 4,5% |
| Interior de São Paulo | 5,6% | 5,6% |
| Grande Rio de Janeiro | 4,0% | 6,0% |
| Centro-Oeste | 3,6% | 3,5% |
| Grande São Paulo | 1,2% | 5,5% |
Reposição é o gargalo, não a demanda
Quando o consumo de itens essenciais sobe de forma concentrada, o limite aparece na reposição: o produto vende, mas a gondola fica vazia até a próxima entrega e a venda migra para o concorrente da esquina. A Abras afirma que o crescimento ocorre em cada formato, de supermercados a atacarejos e mercearias. É a tendência do setor mais visível nas últimas semanas, e a demanda do consumidor por itens essenciais passou a pressionar a distribuição urbana de forma concentrada. Quem monitora disponibilidade por loja consegue separar dois cenários que parecem iguais no faturamento: demanda maior com prateleira abastecida, ou demanda maior com ruptura que só aparece no caixa do vizinho.
Como transformar o dado em ação na loja
A tentação oposta também existe: repor em excesso nas praças que cresceram menos. A Grande São Paulo saiu de 1,2% para 5,5% em uma semana, o que parece aceleração, mas ainda é metade do ritmo do Sul. A decisão de abastecimento precisa acompanhar a série semanal, e não o título da manchete, porque a demanda do consumidor muda de praça para praça dentro do mesmo mês.
O que ainda está em aberto
A MP 1.394/2026 entrou em vigor em 25 de setembro e o Supremo realizou, em 3 de novembro, a segunda audiência pública sobre o tema, sem decisão e sem prazo anunciado. No Congresso, o regime de urgência começa em 9 de novembro e o primeiro prazo de deliberação é 23 de novembro. Para o varejo, isso significa que a hipótese de reversão segue viva: um plano de sortimento construído como se a mudança fosse permanente pode virar estoque parado se a regra cair.
Perguntas Frequentes
O aumento de 6,5 por cento pode ser atribuído só à proibição das bets?
Não de forma isolada. A primeira semana medida coincide com o prazo de saque das plataformas e antecede um feriado, e as vendas já cresciam antes da medida. A Abras sustenta a relação, mas faltam controles para essas variáveis.
Por que a diferença entre regiões importa mais que o número nacional?
Porque a resposta operacional é local. Praças com alta de 10,6 por cento e praças com 1,2 por cento exigem decisões diferentes de reposição, mix e frequência de entrega, e o dado nacional esconde essa dispersão.
Qual indicador usar para saber se a demanda virou venda?
Disponibilidade por loja e por SKU, medida na mesma semana do sell-out. Faturamento sozinho não distingue demanda maior de ruptura maior.
Vale mudar o sortimento agora?
Com cautela. A regra segue em discussão no Supremo e no Congresso, com prazos em novembro. Ajustes de mix devem ser graduais e acompanhados de série semanal, e não de um único dado.










