O macarrão está em 99,4% dos domicílios brasileiros e a categoria faturou R$ 7,8 bilhões no primeiro semestre de 2026, com cerca de 647 mil toneladas comercializadas, segundo dados da NielsenIQ apresentados pela Abimapi. Até 28 de outubro de 2026, o quadro que a associação descreve é de estabilidade no volume e de migração interna: o consumidor concentra a compra nos extremos da categoria, no item mais barato e no premium, e deixa o meio da gôndola encolher. Para quem monitora preço no varejo online, esse movimento é o mais difícil de enxergar, porque a média esconde as duas pontas.
Um mercado estável que muda por dentro
Os números de penetração e de frequência contam uma história diferente da que o faturamento sugere. A categoria ganhou 0,4% de penetração e 0,9% de compradores, e a frequência de compra subiu 1,8%, chegando a uma média de 19,7 idas ao ponto de venda por ano. Mais lares comprando, mais vezes, com faturamento ligeiramente menor: a aritmética só fecha se o preço médio pago por ocasião caiu, o que é exatamente o que o efeito ampulheta descreve.
O que o efeito ampulheta faz com a gôndola
O presidente-executivo da Abimapi, Claudio Zanão, explica que o consumidor passou a concentrar os gastos nos extremos da categoria, equilibrando itens simples e acessíveis para o cotidiano com produtos premium de maior valor agregado. Em um cenário em que cerca de 80% dos lares estão endividados, essa racionalidade é previsível, e o efeito prático é uma gôndola com duas concentrações de demanda e um vazio no meio, onde ficam as marcas que não são nem a opção mais barata nem a mais diferenciada.
As duas pontas que crescem
Na ponta premium, as massas refrigeradas avançaram 6,4% em faturamento e o nhoque registrou a maior alta em valor, com 11,1%. Na ponta de entrada, as massas secas tradicionais puxaram o giro, com avanço de fabricantes regionais e menores nas linhas com ovos e caseiro. Entre as duas, as massas de sêmola seguem como base de volume, com 87,7% de penetração, e o espaguete permanece o formato mais presente, em 95,7% dos lares.
Por que a média de preço engana nesta categoria
Quando o consumo se desloca para as pontas, o preço médio da categoria pode ficar estável enquanto cada faixa se move em direção oposta. Um monitor que acompanha apenas o preço médio por quilo conclui que nada aconteceu, quando na verdade o item de entrada ficou mais barato e o premium ganhou espaço. A leitura correta exige separar as faixas e acompanhar participação de cada uma no volume, não apenas o preço praticado. A tendência do setor, na descrição da associação, é de volume estável com migração de mix, e a demanda do consumidor por conveniência aparece no avanço das massas refrigeradas.
| Segmento | Penetração ou variação | Faixa de preço | O que monitorar na gôndola |
|---|---|---|---|
| Massas com ovos | 87,1% dos lares, alta de 2,1% | Entrada | Preço por quilo e ruptura |
| Massas comuns | 62,9% dos lares, mais 4 pontos | Entrada | Participação de marcas regionais |
| Massas de sêmola | 87,7% dos lares, alta de 0,8 ponto | Intermediária | Espaço de gôndola e promoção |
| Massas refrigeradas | Faturamento mais 6,4%, volume mais 2,4% | Premium | Validade curta e perda |
| Nhoque | Maior alta em valor, 11,1% | Premium | Disponibilidade e sortimento |
A tabela também mostra onde a inovação está sendo colocada. As massas proteicas e as versões inspiradas na culinária asiática aparecem como resposta à demanda por densidade nutricional, e não como substitutas do item de entrada. A Renata Protein+, por exemplo, é feita com sêmola de trigo durum e proteína isolada de ervilha, com 20 gramas de proteína por porção de 80 gramas cruas, o que corresponde a 25% do peso da porção e posiciona o produto em uma faixa de preço claramente superior.
Inovação como disputa de faixa, não de categoria
O diretor comercial da Selmi, Marcelo Schlittler Guimarães, faz uma distinção que vale para qualquer leitura de lançamento: é preciso separar tendência de comportamento de impacto comprovado nas vendas de uma linha específica. A ressalva é importante porque o avanço dos medicamentos à base de GLP-1 é frequentemente citado como causa direta de mudança no consumo de massas, e a própria Abimapi pondera que não existem dados que liguem diretamente o uso dessas medicações à queda de consumo da categoria.
Do lado da indústria, o movimento mais concreto é de portfólio. A Nissin anunciou 13 SKUs até o fim de 2026, incluindo versões instantâneas de udon em copo e pacote, e a chegada da marca Geki ao Brasil, além de uma terceira fábrica em Ponta Grossa prevista para 2027. Para o varejo, isso significa mais variações disputando o mesmo metro linear, e uma decisão de sortimento que precisa considerar faixa de preço antes de considerar sabor.
O que os dados não respondem
O material não informa preço médio por quilo, participação de cada faixa no volume total, nem o desempenho das linhas proteicas em unidades vendidas, e a expectativa de estabilidade para o fechamento de 2026 é uma projeção da associação, não um resultado. A conclusão defensável é limitada: a categoria mantém presença quase universal nos lares, ganha frequência de compra e perde valor por ocasião, com crescimento concentrado em refrigerados e na entrada tradicional.
Perguntas Frequentes
O que é o efeito ampulheta na categoria de massas?
É a concentração da compra nos extremos da categoria: o consumidor leva o item mais acessível para o dia a dia e o produto premium para ocasiões específicas, deixando as faixas intermediárias com menos espaço. O resultado é faturamento estável com mix mais polarizado.
Como uma marca no meio da gôndola deve reagir?
Escolhendo uma das pontas. Ficar entre o preço de entrada e o atributo premium significa competir sem vantagem clara de preço nem de diferenciação, e é justamente a posição que perde participação quando 80% dos lares estão endividados.
Por que o preço médio da categoria não mostra o que está acontecendo?
Porque as duas pontas se movem em direções opostas. O item de entrada fica mais barato e ganha volume, o premium ganha participação, e a média pode ficar estável. Só a leitura por faixa revela a migração.
As massas proteicas já justificam espaço dedicado na gôndola?
Justificam teste, não expansão automática. O produto tem atributo claro, com 20 gramas de proteína por 80 gramas, mas o material disponível não informa unidades vendidas nem repetição de compra, que são os dados que sustentam aumento de espaço.










