O Carrefour chegou a 100 drogarias e testa um novo modelo dentro do Atacadao, segundo reportagem do Mercado e Consumo publicada em 14 de outubro. A operacao de farmacia dentro de loja de autosservico nao e novidade no Brasil, mas a escala que o grupo atingiu permite olhar o formato com dados, e nao apenas como experiencia isolada. O que esta em jogo e a composicao da cesta do bairro e a capacidade de transformar uma visita de abastecimento em uma visita de saude.
Conclusões Principais
A logica do formato e simples: o cliente ja esta na loja, ja esta com tempo disponivel e ja aceita comprar categorias diferentes na mesma visita. A farmacia aproveita esse fluxo sem precisar construir demanda propria, e o mercado ganha uma razao adicional para a visita, sobretudo em bairros onde a farmacia de rua mais proxima fica longe ou tem horario limitado.
O ganho de cesta, no entanto, depende de adjacencia. Quando a farmacia fica na entrada e o cliente passa por ela antes de pegar o carrinho, a conversao e menor do que quando ela esta no caminho de saida, depois que o abastecimento ja foi feito. A posicao no layout e uma decisao de receita, nao de arquitetura, e costuma ser tratada como detalhe.
Ha tambem um efeito de confianca que nao aparece no relatorio. Ver uma farmacia com farmaceutico presente dentro do mercado reduz a percepcao de risco da loja como um todo e aumenta a disposicao de comprar categorias sensiveis, como suplementos e itens de cuidado pessoal. Esse efeito e dificil de medir, mas explica por que redes de autosservico insistem no formato.
Por que a farmacia de bairro e um ativo de fluxo
A farmacia de bairro tem frequencia alta e ticket baixo, o que a torna uma fonte constante de visitas. Quando ela entra dentro do mercado, essa frequencia passa a alimentar a cesta de abastecimento, e nao apenas a categoria de saude.
O que a escala de 100 lojas permite aprender
Com cem pontos, o grupo passa a ter base para comparar formatos, tamanhos de loja e regioes. Antes disso, cada unidade era um teste isolado e qualquer resultado podia ser atribuido a fatores locais. A escala transforma a operacao em um laboratorio, com possibilidade de isolar variaveis como metragem, mix e horario de funcionamento.
A comparacao mais util e entre lojas com e sem farmacia na mesma regiao. Se a cesta media das lojas com farmacia cresce mais do que a das lojas sem, o ganho vem do formato; se cresce igual, o ganho vem do mercado e o formato apenas acompanha. Essa distincao evita a conclusao apressada de que toda loja deve receber uma farmacia.
O segundo aprendizado e sobre sortimento. Farmacia dentro de mercado vende menos prescricao e mais conveniencia: analgesicos, antialergicos, itens infantis e cuidados com a pele. Um mix copiado de farmacia de rua tende a girar devagar, porque o cliente nao vai ao mercado para resolver um tratamento longo.
A metragem minima muda o resultado
Abaixo de um certo tamanho, a farmacia nao consegue expor o mix necessario e passa a competir por espaco com categorias de maior giro. Definir a metragem minima antes de replicar o modelo evita lojas que nunca chegam ao ponto de equilibrio.
Horario estendido muda a proposta
Em bairros com pouca oferta noturna, manter a farmacia aberta depois do fechamento do mercado cria uma razao propria para a visita. O custo adicional de equipe precisa ser comparado ao ticket das vendas que so acontecem nesse horario. O calculo precisa incluir o custo de seguranca e de energia, que sobem quando a loja opera fora do horario do mercado.
Melhores Práticas
A primeira pratica e tratar a farmacia como categoria de cesta, e nao como loja separada. Medir quantos clientes compram nas duas areas na mesma visita e qual e o ticket desses clientes em comparacao com os demais. Esse numero mostra se o formato esta somando ou apenas dividindo o mesmo gasto.
A segunda pratica e ajustar o mix ao comportamento do bairro. Bairros com populacao idosa demandam mais itens de uso continuo e atendimento presencial; bairros com familias jovens demandam mais infantil e cuidados diarios. O mix deve seguir essa diferenca, e nao uma lista unica definida na sede.
A terceira pratica e definir o papel do farmaceutico. Se ele existe apenas para cumprir exigencia regulatoria, o custo aparece sem retorno. Se ele orienta a compra de categorias adjacentes, como suplementos e dermocosmeticos, passa a ser parte da proposta comercial e justifica o investimento.
Medir cliente compartilhado
O indicador central e a proporcao de clientes que compram nas duas areas na mesma visita. Sem esse numero, a rede nao sabe se a farmacia amplia a cesta ou apenas redistribui a mesma compra. Ele deve ser lido junto com o ticket medio, porque um cliente compartilhado com ticket baixo pode indicar apenas compra de conveniencia.
Erros Comuns
O primeiro erro e replicar o modelo sem considerar a concorrencia local. Em ruas com varias farmacias, a farmacia dentro do mercado precisa de uma proposta diferente, geralmente conveniencia e horario, e nao de preco. A diferenca precisa aparecer na comunicacao e no horario, nao apenas no preco, porque a farmacia de rua tem escala de compra maior.
O segundo erro e subdimensionar a area. Uma farmacia apertada perde a chance de expor categorias de maior margem e passa a ser apenas um ponto de venda de remedios, com giro baixo e margem pressionada. A metragem minima deve ser definida a partir do mix alvo, e nao do espaco que sobrou na planta da loja.
O terceiro erro e nao integrar o programa de fidelidade. Se a compra na farmacia nao acumula beneficio nem aparece no historico do cliente, a rede perde a informacao mais valiosa do formato, que e a combinacao entre abastecimento e saude.
O que isso significa para o mercado de bairro
A entrada de farmacias em lojas de autosservico pressiona a farmacia independente de rua, que perde a vantagem de conveniencia sem ganhar escala de compra. A resposta mais comum e especializar o atendimento e ampliar servicos, como aplicacao de injetaveis e afericao, que o formato dentro de mercado dificilmente cobre com a mesma profundidade.
Para o mercado, o risco e a complexidade regulatoria. Farmacia exige responsabilidade tecnica, controle de validade e armazenagem adequada, e esses custos sao fixos por loja. Redes que tratam a farmacia como uma categoria comum subestimam o custo de manter a conformidade em cem pontos ao mesmo tempo.
Resumo
Chegar a 100 drogarias muda a natureza do teste: o formato deixa de ser experiencia e passa a ser operacao comparavel. O ganho real depende de posicao no layout, mix ajustado ao bairro e integracao com o programa de fidelidade. Sem esses tres elementos, a rede acumula pontos de venda sem conseguir explicar por que alguns funcionam e outros nao.
A recomendacao e medir cliente compartilhado, definir metragem minima, ajustar o mix por perfil de bairro e dar ao farmaceutico um papel comercial claro. Sem esses quatro pontos, a farmacia dentro do mercado vira custo fixo sem contrapartida de cesta.
Fontes de Dados
1. Mercado e Consumo: Carrefour chega a 100 drogarias
2. Novo varejo alimentar e omnicanalidade
3. Cimed e mercados maiores no longo prazo
Perguntas Frequentes
Por que a farmacia dentro do mercado funciona?
A: Porque aproveita o fluxo existente e adiciona uma razao de visita, sobretudo em bairros com pouca oferta de saude proxima.
Qual e a melhor posicao no layout?
A: No caminho de saida, depois do abastecimento, quando o cliente ja resolveu a compra principal e tem tempo para a categoria de saude.
Qual indicador mede o ganho real?
A: A proporcao de clientes que compram nas duas areas na mesma visita e o ticket desses clientes em comparacao com os demais.
O mix deve ser igual em todas as lojas?
A: Nao. Bairros com populacao idosa e bairros com familias jovens exigem mixes diferentes, definidos por perfil local.
Qual e o papel do farmaceutico?
A: Orientar a compra de categorias adjacentes, como suplementos e dermocosmeticos, e nao apenas cumprir exigencia regulatoria.
Quais sao os riscos do formato?
A: Custo fixo de conformidade por loja, concorrencia local e subdimensionamento de area, que reduzem giro e margem.
Referências
1. Mercado e Consumo 14 de outubro de 2026










