Até 5 de novembro de 2026, o varejo alimentar brasileiro entregou duas inaugurações que dizem mais sobre critério de escolha de ponto do que sobre expansão. Em Manaus, o Grupo DB reabriu uma unidade na zona norte com investimento de 50 milhões de reais, dos quais 20 milhões em estoque, em um espaço ampliado para mais de 6 mil metros quadrados. Em Feira de Santana, a Economart abriu a segunda loja da rede, com 4.700 metros quadrados de área de vendas e mais de 10 mil itens. Para quem decide onde abrir, o dado relevante não é o tamanho da loja, mas o raio de influência que cada uma pretende cobrir. Ou seja: a seleção de loja deixa de ser uma conta de metros quadrados e passa a ser uma conta de área comercial já atendida por outras lojas, próprias ou concorrentes.
O que cada projeto declara sobre o seu raio
A comunicação do DB é incomum porque nomeia os bairros: Manoa, Colônia Santo Antônio, Terra Nova 1, 2 e 3, Novo Israel, Monte das Oliveiras, Santa Etelvina, Cidade Nova e Nova Cidade. Ao listar o entorno, a rede transforma uma decisão de ponto em uma promessa de atendimento, e essa promessa pode ser auditada. A loja foi fundada em 2006 e passou por obra radical iniciada em abril deste ano, o que indica reforma de ativo existente em vez de construção novaSuperHiper: DB inaugura atacado e varejo na zona norte de Manaus.
A Economart escolheu outro caminho. A segunda loja em Feira de Santana tem 4.700 metros quadrados, 28 caixas tradicionais e 165 vagas de estacionamento, com sortimento acima de 10 mil itens que inclui alimentos, bebidas, açougue, hortifrúti, padaria, higiene pessoal, limpeza e bazar. A rede aposta em conveniência de acesso e em estacionamento gratuito como argumento, o que faz sentido em cidade média onde o deslocamento de carro é parte da rotina de compraSuperHiper: Economart inaugura segunda loja em Feira de Santana.
Atacado e varejo no mesmo endereço
A escolha do formato misto não é estética. Uma loja que atende tanto o consumidor final quanto o pequeno comerciante dilui o risco de demanda: quando o consumo das famílias desacelera, o abastecimento de negócios do entorno sustenta o volume. O DB cita explicitamente os pequenos empreendedores como público, o que muda a cesta média e a frequência de visita, e por consequência o dimensionamento de estoque e de área de carga e descarga.
Preço do entorno define o sortimento
Abrir loja com promessa de preço baixo exige saber qual é o preço de referência da região. O indicador Abrasmercado, que acompanha uma cesta de 35 produtos de largo consumo, subiu 1,09 por cento em setembro, após quedas de 1,24 por cento em julho e 0,57 por cento em agosto, levando o valor médio da cesta de 837,14 para 846,22 reais; no acumulado do ano a alta é de 5,73 por centoSuperHiper: preços da cesta Abrasmercado sobem em setembro.
| Item | Variação em setembro | Acumulado no ano | Efeito na loja |
|---|---|---|---|
| Arroz | Alta de 4,56 por cento | Alta de 4,96 por cento | Item de tráfego, exige comparação diária |
| Feijão | Queda de 4,12 por cento | Alta de 36,43 por cento | Cesta básica ainda pressionada no ano |
| Café torrado e moído | Queda de 1,09 por cento | Queda de 16,19 por cento | Espaço para preço agressivo |
| Leite longa vida | Queda de 0,26 por cento | Alta de 27 por cento | Risco de imagem se faltar |
Essa dispersão importa porque define onde a loja pode parecer barata e onde não pode. Arroz e leite são itens de comparação imediata: o cliente conhece o preço de cor e percebe a diferença na hora. Café, com queda acumulada de 16,19 por cento no ano, permite uma política de preço mais agressiva sem corroer margem. Feijão, que cai no mês mas sobe 36,43 por cento no ano, é o item mais delicado: o cliente sente a alta e culpa a loja, não o mercado.
Para o fornecedor, isso muda a conversa de sell-in. Não basta garantir presença: é preciso garantir presença nos itens que o consumidor usa como régua de preço, porque é ali que a percepção de valor da loja se forma. Um sortimento largo com falta no arroz comunica caro, mesmo que o resto esteja abaixo do mercado.
O que medir depois da inauguração
Três números que valem mais que o fluxo do primeiro dia
O primeiro é a taxa de canibalização sobre lojas da própria rede no mesmo raio. A segunda loja da Economart em Feira de Santana só cria valor se trouxer clientes novos; se apenas dividir os existentes, o custo operacional dobra sem ganho de volume. O segundo é a venda por metro quadrado por categoria, que revela se a área adicional foi usada em categorias de maior giro ou apenas replicou o sortimento da primeira loja.
O terceiro é a ruptura por item de cesta básica, olhando cada loja como candidata a loja de alto potencial dentro da própria rede. Em lojas de atacado e varejo, a falta de um item de referência custa mais que a margem perdida, porque o cliente ajusta a percepção de preço da loja inteira. Medir ruptura por item, e não por categoria, é o único jeito de enxergar isso.
Há limites de evidência. Os valores investidos e as áreas foram informados pelas redes; não há divulgação de faturamento esperado, prazo de retorno ou impacto sobre lojas vizinhas. Os dados de cesta são nacionais e de setembro, e não substituem a pesquisa de preço local de cada praça. As conclusões sobre raio de influência são, portanto, direcionais até que existam dados de operação.
Perguntas Frequentes
Por que o formato misto de atacado e varejo ganhou espaço?
Porque dilui o risco de demanda: o consumidor final sustenta a frequência e o pequeno comerciante sustenta o volume, o que estabiliza a operação em períodos de consumo mais fraco.
Reformar uma loja antiga é melhor que abrir uma nova?
Nem sempre, mas reduz prazo e capital. A reforma do DB em uma unidade de 2006 aproveita o ponto e a clientela existente, com obra iniciada em abril e reabertura no fim de outubro.
Como o preço da cesta influencia o sortimento?
Itens de comparação imediata, como arroz e leite, definem a percepção de preço da loja e precisam de política própria, diferente de categorias com mais margem.
Qual indicador mostra se a segunda loja valeu a pena?
A canibalização sobre a primeira loja somada à venda por metro quadrado por categoria: sem clientes novos, a segunda loja só divide o volume existente.










