A Loungerie lançou um aplicativo próprio (Mercado & Consumo) para ampliar as vendas no digital, apostando em um canal direto em vez de depender apenas de marketplaces e redes sociais. A decisão é comum entre marcas de moda que já passaram da fase de teste e agora precisam de margem e de dados próprios. O movimento acontece às vésperas de uma Black Friday que deve movimentar mais de R$ 16 bilhões no e-commerce brasileiro (Mercado & Consumo), janela em que o custo de aquisição sobe e o valor de uma base própria cresce.
Por que sair do marketplace
Marketplace resolve descoberta e logística, mas cobra por isso: comissão, participação em promoções e, principalmente, o controle sobre o relacionamento com o cliente. A marca não vê o histórico completo, não decide quando falar com a base e não consegue diferenciar a experiência. O aplicativo devolve esses três ativos, ao custo de assumir tráfego, atendimento e parte da operação.
No segmento de moda íntima, esse controle tem peso extra. Tamanhos, modelagens e trocas são parte central da jornada, e a marca que acompanha o histórico de compras consegue recomendar melhor e reduzir devolução. Em marketplace, essa informação fica fragmentada entre pedidos, e a marca raramente consegue transformá-la em recomendação útil.
A economia de um app próprio
Custo de aquisição
Baixar um aplicativo é um compromisso maior do que clicar em um anúncio, o que normalmente resulta em custo de aquisição mais alto no início. A compensação vem na recompra: um usuário de app tende a comprar com mais frequência e a responder melhor a notificações. O ponto de equilíbrio costuma aparecer entre a segunda e a terceira compra, o que exige um plano de ativação consistente nos primeiros meses.
Margem e mix
Sem comissão de marketplace, a mesma peça rende mais por unidade vendida. Essa margem adicional pode financiar frete grátis, troca facilitada ou um programa de fidelidade, todos elementos que aumentam a recompra. A tentação de usar a margem extra para desconto imediato é grande, mas costuma destruir valor: desconto treina o cliente a esperar promoção, enquanto benefício de serviço treina o cliente a voltar.
O que a experiência do cliente exige
Um app de moda precisa resolver três coisas antes de pedir cadastro: catálogo com informação de modelagem, troca sem atrito e atendimento com resposta rápida. Se qualquer uma falhar, o usuário desinstala e volta ao marketplace, onde a comparação é mais fácil. A régua é alta porque o consumidor já está acostumado a padrões de experiência definidos por aplicativos de grande escala.
Há também a questão da confiança em pagamento. A Anvisa proibiu a Amazon de vender tiras de glicemia falsificadas no Brasil, caso que expõe como a credibilidade de um marketplace depende do controle de seus vendedores (Mercado & Consumo). Para uma marca que constrói canal próprio, o argumento implícito é justamente esse: no app da marca, o consumidor sabe exatamente quem está vendendo.
Como medir se o app funciona
Retenção por coorte
O indicador mais honesto é a retenção por coorte mensal: quantos usuários que instalaram em um mês voltam a comprar nos três meses seguintes. Comparar a coorte do app com a coorte de marketplace revela se o canal próprio realmente cria valor ou apenas transfere vendas. Sem essa comparação, o crescimento do app pode ser apenas canibalização disfarçada.
Taxa de troca e devolução
Moda íntima tem devolução concentrada em tamanho. Se a taxa de troca no app for menor do que no marketplace, a informação de modelagem e a recomendação estão funcionando. Se for maior, o catálogo promete algo que o produto não entrega, e nenhum investimento em mídia corrige isso.
Os erros mais comuns nesse caminho
O primeiro é lançar o app como cópia do site, sem aproveitar recursos nativos como notificação, câmera e login rápido. O segundo é tratar o app como canal secundário e manter preço e sortimento diferentes, o que confunde o cliente e gera reclamação. O terceiro é medir sucesso por downloads, métrica que cresce com mídia paga e não diz nada sobre retenção.
O caminho mais sólido é o inverso: começar com um público pequeno e fiel, entregar experiência superior em troca e atendimento, e só depois ampliar a base com investimento em aquisição. Marcas que invertem a ordem costumam pagar duas vezes, primeiro para instalar e depois para reter.
O que observar na Black Friday
A temporada será o primeiro teste real. Vale acompanhar três números: participação do app nas vendas totais, custo de aquisição por comprador ativo e percentual de pedidos do app com troca. Se a participação subir com custo estável e troca menor, o canal está saudável. Se a participação subir apenas com desconto agressivo, o app ainda não construiu valor próprio.
Para o setor, o caso da Loungerie reforça uma tendência clara: marcas de nicho estão trocando alcance por relacionamento. Em categorias com recompra e necessidade de orientação, esse trade off costuma valer a pena, desde que a operação acompanhe a promessa feita na vitrine.










