A DHL projeta movimentar 37 milhões de pacotes na Black Friday e no Natal, sustentando a operação com robôs, automação e um mutirão de contratações temporárias, segundo o Mercado & Consumo. O volume é a expressão logística de uma data que se consolidou como o principal teste de capacidade do ano para o setor. O que torna a projeção interessante além do número absoluto é a combinação de tecnologias e gente: a operação de pico continua dependendo de pessoas, e a tecnologia entra justamente para tornar cada pessoa mais produtiva nos meses de maior pressão.
A operação que começa antes
O planejamento de uma operação de 37 milhões de encomendas começa meses antes do primeiro pedido. O Mercado & Consumo detalhou a preparação da empresa para a Black Friday e o Natal, e o padrão do setor é claro: capacidade adicional precisa ser construída, testada e aquecida antes de a demanda chegar. Quando a operação de pico começa junto com a demanda, ela começa atrasada.
A antecedência também vale para os contratos. Transportadoras, centros de distribuição e equipes temporárias são negociados com meses de antecedência, porque na véspera da data ninguém tem capacidade sobrando. Quem espera a demanda chegar para procurar capacidade paga mais caro e recebe depois, e a própria escala da projeção da DHL explica por que o setor se move em bloco nessa corrida.
Robôs e automação
Triagem e esteiras
A camada de automação aparece onde o volume é mais previsível. A reportagem descreve robôs integrados à operação, atuando em triagem, movimentação e abastecimento de esteiras — tarefas repetitivas em que a máquina ganha da pessoa em consistência, embora não em flexibilidade. O ganho prático é a redução do gargalo nos horários de pico, quando os pacotes chegam em ondas e qualquer atraso se propaga pelo resto da cadeia.
Rastreabilidade
A segunda frente tecnológica é a rastreabilidade. Em uma operação de 37 milhões de itens, a visibilidade de cada pacote deixa de ser um diferencial e passa a ser infraestrutura. Transformações operacionais reconhecidas no setor têm como ponto comum a integração de dados entre etapas, porque um pacote sem rastreamento confiável é um pacote que a central de atendimento vai ter de procurar manualmente — e isso, em escala de milhões, é onde a margem desaparece.
O mutirão de contratações
Perfil das vagas
Apesar da automação, a operação de pico continua sendo intensiva em gente. As contratações temporárias cobrem funções de triagem, carga e descarga e entrega, e o perfil buscado mistura disciplina operacional com disposição para trabalho em turnos intensos. O setor aprendeu que o discurso de "substituição de pessoas por robôs" não sobrevive a uma Black Friday: a máquina assume o repetitivo, e a pessoa assume o que exige julgamento.
Treinamento rápido
Treinar gente nova em semanas é um problema logístico próprio. Operações de varejo que investem em pessoas tratam o treinamento como parte da capacidade, e não como preparo opcional: um funcionário recém-chegado sem treinamento adequado reduz a vazão de toda a célula em que trabalha. A solução prática é o treinamento em camadas, com simulação de pico antes de a operação real começar.
Os 37 milhões de pacotes
O volume projetado serve como régua para o resto do mercado. Se a maior operadora logística do país dimensiona sua capacidade para 37 milhões de encomendas em uma janela de datas, os varejistas que dependem dessa capacidade precisam encomendar espaço com a mesma antecedência, porque a pressão sobre a malha se concentra em janelas cada vez mais curtas de pico.
Para o varejista, a consequência é uma negociação diferente com a logística. Em vez de simplesmente contratar frete, trata-se de reservar capacidade, alinhar promessas de prazo e desenhar planos de contingência para os itens de maior giro. Marcas que diversificam lançamentos e formatos ao longo do calendário reduzem a dependência de uma única janela de pico, o que se traduz em menos risco logístico exatamente quando a malha está saturada.
O que o setor deve observar
Três indicadores vão mostrar se a operação se sustenta. O primeiro é o cumprimento de prazo nos dias seguintes à Black Friday, quando os pacotes saem em ondas. O segundo é o índice de avarias, que costuma subir quando a triagem é acelerada. O terceiro é o custo por pacote, que revela se a automação compensou o investimento ou apenas transferiu o gargalo para outro ponto da cadeia.
A lição para o setor é que pico não se resolve com heroísmo operacional, mas com antecedência. A preparação da DHL — robôs, contratações e planejamento iniciado com meses de folga — é o modelo que o resto da cadeia deveria copiar, e não apenas admirar. Quando 37 milhões de pacotes estão em jogo, a diferença entre uma data bem-sucedida e um colapso logístico se decide nos meses em que ninguém está olhando.










