As vendas de alimentos nos supermercados brasileiros aceleraram depois da restrição às apostas on-line, e os números por região mostram que o efeito não foi uniforme. Até 5 de novembro de 2026, o levantamento da Associação Brasileira de Supermercados (Abras) aponta alta de 6,5% na semana de 5 a 11 de outubro e de 6,3% entre 12 e 18 de outubro, sempre na comparação com os mesmos períodos de 2025, após a publicação da Medida Provisória 1394/2026 em 25 de setembro. Para quem opera rede de lojas, o dado mais útil não é a média nacional, e sim a diferença de 9,4 pontos entre a região que mais cresceu e a que menos cresceu.
O que mudou depois da MP das apostas
O mecanismo descrito pela Abras é simples e verificável em parte. Com a MP, parte do dinheiro que saía do orçamento familiar para plataformas de apostas voltou a circular no comércio, e o primeiro destino foram os itens essenciais da cesta. A própria entidade liga o movimento a dados do Banco Central que mostram redução imediata de 10% no volume de transações por PIX no período da proibição, patamar que hoje está em 7% (https://jornaldaorla.com.br/noticias/supermercados-vendem-mais-alimentos-apos-proibicao-das-bets-afirma-entidade). É uma correlação forte, mas correlação não é causa: parte da alta pode vir de promoções e do calendário de pagamentos.
O detalhe que interessa ao varejo é a cesta. Arroz, óleo, macarrão e café são itens de giro alto, margem baixa e recompra semanal, e são exatamente os produtos que definem a frequência de visita à loja. Quando o consumo desses itens sobe, a loja recebe mais visitas, e cada visita adicional carrega chance de compra em categorias de margem maior. O ganho, portanto, não está só no volume da cesta básica, mas no tráfego que ela traz.
O mesmo movimento aparece em cada formato de loja
A Abras registra crescimento em supermercados, atacarejos e mercearias, o que reduz a chance de ser um efeito de troca de canal. Se o avanço estivesse concentrado apenas no atacarejo, a leitura seria outra: consumidor migrando para preço baixo, não consumindo mais. Como aparece em cada um dos formatos, a hipótese mais provável é aumento real de volume dentro de casa, coerente com a ideia de dinheiro que voltou a circular (http://www.blogdareginacarvalho.com.br/index.php/en/abras-consumo-alimentos-crescimento-fimdasbets).
A diferença entre regiões é o dado acionável
Na primeira semana analisada, Sul e o grupo formado por Minas Gerais, Espírito Santo e interior do Rio cresceram 10,6%, o Nordeste 6,5%, o interior de São Paulo 5,6%, a Grande Rio 4%, o Centro-Oeste 3,6% e a Grande São Paulo 1,2%. Na segunda semana a ordem mudou em parte: o Sul ficou em 9%, o grupo de Minas, Espírito Santo e interior do Rio em 7,1%, a Grande Rio em 6%, o interior paulista em 5,6%, a Grande São Paulo em 5,5%, o Nordeste em 4,5% e o Centro-Oeste em 3,5%.
| Região | Semana de 5 a 11 de outubro | Semana de 12 a 18 de outubro |
|---|---|---|
| Sul | 10,6% | 9,0% |
| Minas Gerais, Espírito Santo e interior do Rio | 10,6% | 7,1% |
| Nordeste | 6,5% | 4,5% |
| Interior de São Paulo | 5,6% | 5,6% |
| Grande Rio de Janeiro | 4,0% | 6,0% |
| Centro-Oeste | 3,6% | 3,5% |
| Grande São Paulo | 1,2% | 5,5% |
Duas leituras saem dessa tabela. A primeira é que a Grande São Paulo, o maior mercado do país, foi a região mais lenta na primeira semana e a que mais acelerou na segunda, o que sugere defasagem de resposta em vez de ausência de efeito. A segunda é que o interior de São Paulo ficou estável em 5,6% nas duas semanas, padrão típico de mercado que já operava perto do teto de capacidade das lojas existentes.
Onde está a loja de alto potencial
Para uma rede, a leitura regional vira decisão de área comercial. Regiões com crescimento de dois dígitos e queda na semana seguinte indicam pico de demanda sazonal; regiões com crescimento estável nas duas semanas indicam demanda estrutural. A loja de alto potencial não é necessariamente a que mais cresce, e sim a que sustenta crescimento com capacidade de atendimento, porque é ali que o investimento em sortimento e em frente de caixa se paga mais rápido.
O calendário do fim de ano muda a comparação
O efeito das apostas chega num momento em que o varejo brasileiro já vinha diluindo o pico de dezembro. Dados do Instituto de Economia Gastão Vidigal, da Associação Comercial de São Paulo, mostram que as vendas de novembro para dezembro cresciam 41% em 2005 e passaram a crescer 11% em 2025, à medida que as datas duplas e a Black Friday anteciparam as compras de fim de ano (http://dcomercio.com.br/publicacao/s/datas-duplas-antecipam-compras-de-fim-de-ano-e-alteram-comportamento-do-consumidor). Isso significa que a base de comparação de outubro e novembro está mais alta do que estava há uma década.
O mesmo levantamento mostra que as empresas responsáveis por mais de 80% das vendas do setor desenvolveram infraestrutura logística para atender picos, com entrega eficiente na última milha. Para o varejo alimentar, a consequência prática é que a disponibilidade na gôndola passa a ser o gargalo mais provável: se a demanda sobe de forma regional e desigual, a ruptura aparece justamente nas lojas que mais crescem.
Três verificações para a próxima semana
- Comparar a venda por loja com a média da própria regional, para separar efeito de mercado de efeito de execução.
- Checar a disponibilidade dos itens da cesta básica nas lojas das regiões que mais cresceram, antes que a ruptura apareça no resultado.
- Separar o que é pico sazonal do que é demanda estrutural, olhando duas ou três semanas seguidas e não apenas uma.
A terceira verificação é a que costuma faltar. Uma semana de alta pode ser pico de pagamento, e duas semanas seguidas de alta com disponibilidade preservada são sinal de demanda que se sustentou. Separar as duas coisas evita o erro clássico de ampliar sortimento e estoque com base em um único dado, e evita também o erro oposto, de ignorar uma mudança real por achar que era ruído.
Perguntas Frequentes
Por que as vendas de alimentos subiram depois da restrição às apostas?
Porque parte do dinheiro que ia para plataformas de apostas voltou a circular no comércio, e o primeiro destino foram os itens essenciais. A Abras relaciona o movimento à queda de 10% nas transações por PIX no período da proibição.
O crescimento aconteceu em cada formato de loja?
Sim. A entidade registra alta em supermercados, atacarejos e mercearias. Isso reduz a chance de ser apenas troca de canal e sustenta a hipótese de aumento real de volume dentro de casa.
Quais regiões cresceram mais e o que isso indica?
Na primeira semana, Sul e o grupo de Minas Gerais, Espírito Santo e interior do Rio cresceram 10,6%, contra 1,2% na Grande São Paulo. A diferença de 9,4 pontos indica que a resposta ao choque de renda foi regional, não nacional.
Como usar esse dado para decidir onde investir na rede?
Separando pico sazonal de demanda estrutural. Crescimento estável em duas ou três semanas, com disponibilidade preservada, indica área comercial com espaço para mais sortimento; alta de uma semana só indica pico.









