Até 8 de novembro de 2026, o calendário comercial brasileiro entrou num formato que muda a conta de quem acompanha preço. As plataformas abriram o calendário de novembro no fim de outubro e esticaram as ofertas até dezembro, enquanto o varejo alimentar divulga desempenho semanal com números que não fecham entre si. A promoção que costumava durar um dia agora atravessa novembro e entra em dezembro — e do outro lado dela existe uma data fixa: 2 de fevereiro de 2027, quando começa a cobrança do Imposto Seletivo.
O que foi anunciado e o que falta saber
Os anúncios descrevem intenção, não preço. Volume de cupom, número de anúncios e quantidade de parcelas são métricas de campanha; nenhuma delas informa o preço praticado item a item. Para a auditoria de preço, a pergunta útil é outra: qual será o preço de referência em fevereiro, quando a promoção tiver acabado e o imposto tiver começado.
A MP 1.399/2026, publicada em 4 de novembro, fixa alíquotas que valem de 2 de fevereiro de 2027 até 31 de dezembro daquele ano: cigarro em 66,7% mais 3,50 reais por carteira de 20 unidades, destilados de até 24%, cachaça em 20%, vinho em 8%, cerveja em 4,2%, refrigerantes e bebidas açucaradas em 2,6%. A cobrança é monofásica, incidente uma única vez na produção ou na importação, e não gera crédito ao longo da cadeia.
Monofásico sem crédito muda o repasse
Em tributos não cumulativos, parte do custo é compensada ao longo da cadeia. Num tributo monofásico sem crédito, o valor entra no custo e sai no preço, ou sai da margem. É por isso que a alíquota nominal não descreve o aumento percebido na gôndola: o repasse depende da elasticidade da categoria, do espaço de negociação com o varejista e do momento do calendário promocional em que o custo aparece.
O que a promoção longa faz com o preço de referência
Uma campanha que dura seis semanas cria um problema específico: o preço promocional passa a ser a nova referência para o consumidor, e o retorno ao preço normal parece aumento. Quando esse retorno coincide com a entrada de um tributo novo, os dois efeitos se somam na percepção, mesmo sendo independentes na contabilidade.
| Momento | Preço praticado | Risco de leitura errada | Como separar |
|---|---|---|---|
| Outubro | Preço base | Nenhum | Registrar como referência |
| Novembro e dezembro | Base com desconto | Confundir promoção com queda estrutural | Comparar com outubro, não com a semana anterior |
| Janeiro | Volta ao base | Ler retorno como aumento | Comparar com o base de outubro |
| Fevereiro de 2027 | Base com imposto | Somar promoção e tributo na mesma explicação | Isolar a alíquota por categoria |
A tabela mostra por que a série precisa de quatro pontos, e não de dois. Comparar fevereiro com dezembro produz um número que mistura o fim da promoção com o início do tributo. Comparar fevereiro com outubro isola o tributo, porque os dois pontos estão no mesmo regime promocional.
O risco de antecipação
Quando um tributo tem data certa de entrada, parte da demanda migra para antes dela. Em categorias de estoque doméstico longo, como bebidas e cigarros, o consumidor pode comprar em quantidade em dezembro e janeiro, o que infla as vendas do período e esvazia fevereiro. Para o varejo, isso significa duas curvas: uma de sell-in antecipado e outra de sell-out deprimido logo depois.
Dois números para a mesma semana
O varejo alimentar fechou a semana de 5 a 11 de outubro de 2026 com alta de 6,5% e a semana seguinte com 6,3%, segundo a Abras com dados da NielsenIQ; a abertura regional mostra 10,6% no Sul, em Minas Gerais, no Espírito Santo e no interior do Rio, contra 1,2% na Grande São Paulo, como registra a reportagem da Agência Brasil. A dispersão regional importa para quem monitora preço: uma média nacional de 6,5% pode esconder queda em uma praça e alta forte em outra, e o tributo de fevereiro vai incidir sobre categorias com peso diferente em cada praça.
O mesmo número tem outra leitura. Um levantamento do bnl data aponta que a alta de 6,5% equivale a mais de 1,3 bilhão de reais numa base de 1,067 trilhão de reais faturados em 2024, e que a comparação semanal é sensível a sazonalidade e liquidez, sem controle apresentado pela entidade, como mostra a apuração sobre os ressarcimentos do Assaí. Para a auditoria, a lição é direta: percentual sem base, período e controle não serve como prova de efeito — e vale igual para o desconto anunciado por plataforma e para o repasse do tributo.
Como monitorar a virada
Cinco passos e quatro campos permitem atravessar a virada de ano com uma série comparável. Sem isso, qualquer análise de fevereiro de 2027 vai atribuir ao imposto uma variação que começou em novembro, ou atribuir à promoção um aumento que só apareceu depois do carnaval.
Perguntas Frequentes
O imposto entra no preço já em fevereiro?
A cobrança começa em 2 de fevereiro de 2027. O repasse ao consumidor depende da categoria e da negociação entre indústria e varejo.
Por que comparar fevereiro com outubro?
Porque outubro está fora da campanha promocional e antes do tributo, o que isola o efeito fiscal na comparação.
Promoção longa reduz a margem do varejo?
Reduz a margem unitária e aumenta a exposição. O efeito final depende do volume adicional e do mix vendido no período.
Quais categorias sentirão mais?
Bebidas açucaradas, cerveja, destilados e cigarro, que têm alíquota definida e demanda sensível a preço.









